SISTEMATIZAÇÃO DE EXPERIÊNCIAS

Município

JARI

Título

Geração de Energia Elétrica por Captação de Energi

Resumo

Em março de 2002 ocorreu a implantação de módulos de geração de energia elétrica através de painéis coletores de energia solar em estabelecimentos familiares da comunidade de Rincão dos Pintos, no município de Jari-RS. Financiado com recursos do RS-RURAL, o sistema está sendo acompanhado de forma intensiva em uma das unidades de produção familiar, produzindo energia para utilização de 02 lâmpadas fluorescentes e 01 rádio AM/FM, verificando-se os benefícios econômicos, ambientais e de conforto direto para a família. Paralelamente, identificam-se algumas dificuldades e limitações determinadas pelo sistema, que constitui-se em fonte alternativa de energia, embora não apresente condições de suprir todas as necessidades, quando demandadas em maiores volumes e horas/dias.

Palavras-chave

Energia solar, energia elétrica, geração de energia

Contexto

O município de Jari situa-se na região da Depressão Central do Rio Grande Sul, distante 90 km de Santa Maria e 360 km da capital Porto Alegre, com uma área total de 997,3 km2, apresentando solos de textura areno-argilosa, sendo 70% de sua área, com topografia levemente ondulada e demais 30% com topografia ondulada-acidentada.

A vegetação é predominantemente constituída por campos nativos, de vegetação rasteira e considerados como “campos sujos”, caracterizados pela presença de capim-caninha, carqueja, espinilho, cambará, chirca e maria-mole. Ocorrem capões de matos esparsos basicamente formados por aroeira e canela de veado e, em algumas situações esporádicas, também com presença de louro, angico, guajuvira e timbaúva.

A hidrografia do município é formada principalmente pelos rios Jaguari e Toropi Mirim, que delimitam as divisas com os vizinhos municípios de mesmo nome, possuindo o território uma uniforme distribuição de lajeados, córregos e sangas que constituem-se em afluentes dos dois rios principais.

O território do município, anteriormente pertencente ao município de Tupanciretã, teve sua ocupação baseada na atividade pastoril, constituído por grandes fazendas típicas dos primórdios da ocupação rio-grandense. No início de 1900, entram nesta área descendentes de imigrantes italianos, alemães, poloneses e tchecos oriundos principalmente de Jaguari, os quais adquiriram terras governamentais, através da compra de colônias com área de aproximadamente 25,0 hectares. Mais tarde, após 1970, imigraram também famílias de Selbach, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma, Tapera, Jóia e outros.

As atividades econômicas do município, desde o início de sua ocupação, foram baseadas na atividade agropecuária, com bovinocultura de corte e ovinos, produção de milho, feijão, lentilha, linhaça e trigo. Apresenta atualmente como principais atividades econômicas a bovinocultura de corte (67.529 cab), ovinos (13.000 cab), soja (15.000 ha), milho (4.130 ha), feijão (1.075 ha), fumo (210 ha) e trigo (2.000 ha). Também destacam-se como atividades rurais não agrícolas a produção de carvão vegetal em 4 carvoarias e a fabricação de tijolos maciços, com 15 olarias.

A atual estrutura fundiária do município apresenta 947 estabelecimentos rurais, dos quais 83% possuem até 100,0 hectares e 17% possuem tamanho superior a 100 hectares, denominados fazendas, explorados geralmente com gado (bovinos e ovinos). Esses estabelecimentos maiores, abrangem a maior parte do município, com áreas que atingem entre 200 e 2.500 hectares. Encravados junto à essas propriedades encontram-se os agricultores familiares, distribuídos em núcleos esparsos e periféricos, e que estabelecem relação de dependência particularmente com os estabelecimentos maiores, para os quais prestam serviços eventuais como peões, safristas ou diaristas. Em geral, essas unidades familiares não têm acesso à energia elétrica devido a relação entre o custo de instalação da energia elétrica convencional , (em função da distância dessas áreas) e a capacidade de investimento desses agricultores.

Esta experiência de geração de energia elétrica através da captação de energia solar foi desenvolvido em 9 habitações de agricultores familiares, situadas na comunidade de Rincão dos Pintos, distante aproximadamente 25 quilômetros da sede municipal. Essa região, onde também ocorrem os campos típicos do município,
é constituída por solos de origem basáltica, com expressivo afloramento de rochas, impossibilitando a utilização de equipamentos mecanizados nas operações agrícolas, as quais são realizadas exclusivamente com tração animal e operações manuais.

No ano de 2001, o Escritório Municipal da EMATER/RS, ao realizar estudos e diagnósticos das realidades do município, constatou que cerca de 70% das famílias da comunidade de Rincão dos Pintos e seu entorno encontravam-se sem acesso à energia elétrica, sendo a iluminação das residências realizada por luminárias alimentadas com querosene. Na época, buscou-se identificar e acessar formas de resolução do problema da falta de abastecimento de energia nos domicílios, ocorrendo diversas discussões com 24 famílias nesta situação.

Considerando-se a baixa renda das famílias, que oscila em torno de R$1.000,00/família/ano, e o fato da maioria dos produtores (que não têm acesso à energia) não ser proprietário das terras em que moram, ficou afastada a possibilidade de acesso à energia elétrica convencional, surgindo como alternativa de resolução do problema o aproveitamento da energia solar para geração de energia elétrica, implicando em expressiva redução do valor dos investimentos. Essa opção também teve por base o conhecimento e experiência do extensionista local sobre energia solar. Porém, ainda assim a capacidade financeira dessas famílias impossibilitava a implantação dos empreendimentos, o que foi possível resolver com recursos financeiros do Programa RS-RURAL acessados através do Projeto da Microbacia do Arroio Santiago, microbacia que abarcava parte das famílias que até então participavam da discussão e da busca de resolução do problema.

Em função de algumas famílias dessa comunidade de Rincão dos Pintos manifestarem outras prioridades e devido o limite da área de abrangência da Microbacia beneficiada pelo programa governamental, naquele momento, apenas 09 das 24 famílias foram beneficiadas com recursos do programa para implantação dos módulos de captação de energia solar e geração de energia elétrica. Entre essas famílias beneficiadas houve um acompanhamento mais intensivo na moradia do agricultor Esio Altair da Silva Tormes, 33 anos, casado e com 1 filha de 7 anos.

O agricultor Esio e sua família residem no estabelecimento do sogro, Cristalino Moreira, o qual possui uma área total de 2,5 hectares, que explora em atividades exclusivas para consumo familiar (milho, feijão, mandioca e horta doméstica). Nesta área, situam-se duas residências, cada uma delas destinada a um grupo familiar, sendo uma para a família do agricultor Esio, e a outra para a família do sogro, constituída por Cristalino, sua esposa e um filho, que o ajuda nas tarefas cotidianas. Ambas as residências não possuíam luz elétrica, sendo que a rede geral encontra-se à distância de aproximadamente 500 metros.

A moradia do Esio e sua família é de madeira, com área total de 24,0 m2 e coberta por telhas de fibrocimento e constituída por duas peças - quarto e cozinha - e dispondo como instalações sanitárias apenas a tradicional “casinha”, distante 30 metros da residência.

Esio cultiva áreas de vizinhos próximos em regime de parcerias, cerca de 2,5 hectares, explorados anualmente com lavouras de milho e feijão em caráter comercial e, eventualmente, realizando alguma prestação de serviços para vizinhos, com o que consegue auferir uma renda bruta de aproximadamente R$1.200,00/ano, o que eqüivale a uma renda de US$0,35/per capita/dia , colocando a família em situação considerada como de “pobreza absoluta”.

Descrição da Experiência

A experiência desenvolvida no município de Jari consiste na implantação de módulos de captação e transformação de energia solar em energia elétrica através de células fotovoltaicas. O trabalho foi desenvolvido em 9 habitações de agricultores familiares, com acompanhamento intensivo na moradia do agricultor Esio Altair.

Na moradia da família do agricultor Esio foi implantado, em 28/03/2002, 1 kit-luz adquirido da empresa SOLECO do Brasil Ltda, com representação em Santa Maria/RS. Este kit-luz apresenta as seguintes características:

Componente

Quant.

Descrição

Valor – R$

Implantação

Atual (jul./02)

Painel solar

1

14 Wp

350,00

360,00

Regulador

1

5 A

139,13

165,00

Bateria

1

12 v 56 A

120,00

220,00

Lâmpadas fluorescentes

2

20 W cada

106,00

106,00

Mão-de-obra e instalação

-

-

64,00

123,00

Valor total

-

-

779,13

,00



O funcionamento do sistema consiste em captar a radiação solar através de painel coletor (1), transformando-a em energia elétrica através do regulador (2) e armazená-la em uma bateria 12 volts, 60 Amperes (3). O painel coletor atua tanto com uma ação de transferir a energia para a bateria, quanto de retirá-la, transmitindo, dessa forma, a energia para utilização de até 2 lâmpadas fluorescentes de 20W cada uma (4) e 1 rádio comum (5).

Resultados

Os resultados decorrentes da implantação desta atividade junto à família acompanhada são os seguintes:

a) Maior índice de luminosidade das lâmpadas elétricas quando comparadas às lamparinas a querosene, propiciando significativa melhoria no conforto visual da família;
b) Eliminação no consumo de aproximadamente 30 litros/ano de querosene, combustível não renovável, derivado de petróleo, dependente de aquisições externas ao estabelecimento e em caráter permanente;
c) Economia de R$ 90,00/ano decorrente da não aquisição de querosene, o que eqüivale a 7,5% da renda familiar/ano;
d) Eliminação da emissão de carbono na atmosfera e da produção de fuligem no interior da residência;
e) O sistema implantado permite a geração e acumulação de energia suficiente para acionar 2 lâmpadas de 20W cada uma e um rádio comum durante 3,0 horas diárias.

Potencialidades e limites

aa) Mobilidade do conjunto total dos equipamentos adquiridos, o que é extremamente significativo para a família, tendo em vista que o investimento realizado não está imobilizado em área de terra da qual não é proprietária;
b) A atividade não possui qualquer impacto ambiental, não ocorrendo emissão de resíduos de qualquer natureza. O único componente do sistema que apresenta riscos a médio prazo é a bateria, ao término de sua vida útil, mas esses riscos são superáveis através do retorno ao fabricante;
c) A garantia do fabricante é de 10 anos para o painel solar, componente de maior complexidade técnica no sistema. A assistência técnica prestada pela empresa responsável tem se mostrado efetiva até o momento, realizando a substituição do painel solar (houve dano no mesmo) sem qualquer custo adicional;
d) A adoção do sistema despertou o interesse nos moradores da vizinhança que vivem em condições semelhantes, sendo que estão programados para instalação em 2003, em 06 habitações rurais, outros 06 módulos, com maior capacidade de captação e armazenamento de energia;
e) Capacidade da geração de energia elétrica limitada, no atual sistema, a cerca de 120Wh por um período de até 3,0 horas/dia, recomendando o fabricante o uso por 2,0 horas/dia;
f) A ampliação da capacidade geradora de energia pode ser realizada, embora limitada ao mesmo tempo de uso diário. O investimento necessário para adicionar mais 2 lâmpadas, liqüidificador, TV colorida e refrigerador representa um adicional de R$4.435,00 (valores em julho/02, não incluído o valor dos equipamentos);
g) O custo de aquisição de equipamentos com tensão 12V para utilização no sistema. O conjunto liqüidificador, TV colorida 14” e geladeira 180 litros custa, em média, 2,6 vezes superior ao preço de aquisição de igual conjunto para utilização com energia elétrica convencional com tensão 220V.

Autores e colaboradores

Arlindo José Moura de Almeida

Bibliografia e Rede de Referências

Emater/RS de Jari
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Fone: (0xx55)272-9142 e-mail: emjari@emater.tche.br

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