Relato de Experiência

Rizipiscicultura: um sistema agroecológico de produção

* Cotrim, D. S.; Valente, L. A. L.; Rojahn, P. R.; Sacknies, R. G. S.; Oliveira, R. G.; Severo, J. C. P., Rojahn, L. A.; Leal, D. R.; Lara, V. H.

wpeD.jpg (19550 bytes) Rizipiscicultura é um sistema sustentável caracterizado pelo cultivo consorciado de arroz irrigado e criação de peixe, sem o uso de agrotóxicos, sem o uso de adubo mineral solúvel e reduzindo o uso de máquinas.

Introdução

Este trabalho busca informar e orientar sobre os princípios ecológicos que regem o ecossistema simbiótico arroz/peixe desde a sistematização do solo até a despesca. Sintetiza o resultado de experiências práticas acumuladas nos trabalhos de extensão rural desenvolvidos por extensionistas da EMATER/RS em parceria com técnicos de outras instituições, bem como com produtores que atuam na atividade de rizipiscicultura. Espera-se que os conceitos, orientações e recomendações aqui contidos possam representar uma ferramenta e um referencial para produtores e extensionistas rurais que venham a ingressar na atividade. Salienta-se, ademais, que as técnicas agroecológicas de produção de arroz permanecem como um conjunto de princípios, para adaptação e adequação às condições específicas dos mais diversos agroecossistemas.

 

Proposta do sistema

Rizipiscicultura é um sistema sustentável caracterizado pelo cultivo consorciado de arroz irrigado e criação de peixes, sem o uso de agrotóxicos, sem o uso de adubo mineral solúvel e reduzindo o uso de máquinas (restam mecanizadas a semeadura e a colheita). Este sistema conserva o meio ambiente e proporciona o aumento de renda por área. O trabalho baseia-se no plantio de arroz no sistema pré-germinado e/ou mudas com quadros sistematizados e a criação de peixes na técnica do policultivo de carpas.

 

Por que rizipiscicultura?

a) O consórcio de arroz com peixes é uma alternativa de redução de custos da lavoura arrozeira.

b) O peixe prepara o solo para o próximo cultivo do arroz irrigado, recicla a matéria orgânica e consome sementes de plantas invasoras contidas neste solo, como arroz vermelho, capim arroz, ciperáceas e outras plantas aquáticas. O peixe também consome larvas de insetos, caramujo e bicheira da raiz do arroz. São alimentos, também, sementes de arroz perdidas na colheita e restos culturais da lavoura que, por vezes, são focos de doenças, como por exemplo a bruzone. É importante salientar que, ao realizar o trabalho de limpeza do quadro, desde a fase inicial até a colheita, os peixes não consomem as plantas de arroz e, conseqüentemente, não causam prejuízos econômicos.

c) Existe uma adição de renda gerada pelo peixe que entra na propriedade em um momento de pouca disponibilidade de recursos, na época da formação da nova lavoura.

 

Calendário da rizipiscicultura

Para ter-se uma noção, no tempo e espaço, das ações no sistema, apresentamos abaixo o calendário da rizipiscicultura:

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Descrição do calendário

Para iniciar-se o sistema, o quadro de arroz deve sofrer o processo de sistematização, com nivelamento de solo, construção de taipas reforçadas e montagem de um refúgio para os peixes. O arroz pré-germinado deve ser semeado entre os meses de outubro e dezembro, respeitando-se sempre o zoneamento agroclimático da região. Passados 20 dias da germinação do arroz, deve-se realizar a alevinagem no quadro. Durante os meses de verão, a lavoura arrozeira e o policultivo de carpas convivem harmoniosamente. Normalmente no mês de março ocorre o rebaixamento do nível da água e a colheita mecânica do arroz. Nesta fase os peixes sobrevivem no refúgio do quadro. Após a colheita, é elevado o nível da água de modo que os peixes possam consumir a resteva da lavoura na totalidade do quadro. Os peixes habitam este quadro por aproximadamente oito meses, aproveitando como alimento a resteva do arroz, o plâncton formado naturalmente na água e os alimentos do lodo (bentônicos, sementes de invasoras e larvas de insetos). Nestes meses existe a redução do banco de sementes de invasoras do solo, o preparo e a fertilização do solo através da ação do peixe e o crescimento dos peixes. No mês de outubro ocorre a despesca dos peixes adultos e a semeadura da nova safra de arroz, reiniciando o ciclo.

 

O peixe no sistema

As funções do peixe no sistema de rizipiscicultura são o preparo do solo (com eliminação da resteva), o controle de invasoras (inços) e o controle de pragas. Para obter tais resultados, são utilizadas espécies de peixes (carpas) que possuem hábitos alimentares diferenciados, facilitando a execução deste trabalho. Descreveremos, a seguir, as principais ações destes animais:

Carpa Húngara (Cyprinus carpio variedade húngara): É a espécie de peixe que revolve o solo à procura de insetos, organismos do lodo e sementes de invasoras. Por ter hábito alimentar onívoro (come de tudo), "engole" o lodo, separa o seu alimento e regurgita as sobras, realizando, assim, o trabalho de preparo do solo. É a espécie mais importante no sistema, pois é através dela que obtemos o preparo do solo para a semeadura da próxima safra de arroz, sem a utilização de máquinas e a fertilização do solo através da incorporação do esterco.

Carpa Capim (Ctenopharyngodon idella): Esta espécie alimenta-se de vegetais superiores, como por exemplo a planta do arroz e gramas boiadeiras. A carpa capim é a responsável pela eliminação da resteva e das ervas invasoras .

Carpa Prateada e Carpa Cabeça Grande (Hypophthalmicthys molitrix e Aristichthys nobilis): Estas duas espécies possuem hábitos alimentares semelhantes, são filtradoras de plâncton. A carpa prateada filtra somente o fitoplâncton e a cabeça grande somente o zooplâncton, aproveitando assim o alimento natural na água.

A criação conjunta destas quatro espécies é o que caracteriza o sistema chamado "Policultivo de Carpas".

 

Densidade de peixes

Os trabalhos desenvolvidos em propriedades mostraram bons resultados (preparo de solo satisfatório) com lotação de 3.000 alevinos por hectare. Pode-se, todavia, utilizar densidade média de até 4.500 alevinos se o técnico estiver em dúvida sobre a existência de fatores que aumentem o índice de mortalidade como, por exemplo, predadores.

 

Percentual das espécies de peixe

Para obter um bom preparo de solo, com a densidade referida, utiliza-se o seguinte percentual por espécie.

Carpa Húngara 70%

Carpa Capim 20%

Carpas Filtradoras 10%

 

Limite detectado no processo: os predadores

É importante ter presente que o descuido no controle da ação dos predadores pode inviabilizar o sistema proposto. Deste modo, o ponto-chave para o sucesso da rizipiscicultura depende do cuidado do produtor com estes predadores. Uma técnica recomendada sugere que, ao final de cada ciclo (outubro, após a despesca), seja feita a desinfecção do refúgio com cal virgem. Em condições de campo, observa-se que o índice normal de mortalidade dos alevinos, desde a colocação no quadro até a despesca, é da ordem 50%.

Muitos são os predadores que atacam os peixes, principalmente na fase inicial, quando os cuidados devem ser redobrados. Os predadores aquáticos são: traíra, jundiá, lambari, muçum, jacaré, tartaruga e cobra d'água, entre outros. Recomenda-se a utilização de barreiras físicas como filtros nas entradas e saídas de água. As telas plásticas de malha fina são úteis na entrada de canos de PVC. No caso de canais de terra que alimentam os quadros, recomenda-se filtro com britas grossas.

Os predadores aéreos são: garça, martim-pescador, bem-te-vi e biguá, entre outros pássaros. Recomenda-se a utilização de espantalhos mecânicos (canhões a gás), o uso de espantalhos luminosos e/ou de cachorro adestrado.

Alguns outros limitadores podem ser arrolados, como por exemplo áreas inundáveis ou de topografia acidentada, porém, esses são fatores que também inviabilizam o arroz pré-germinado e, conseqüentemente, a rizipiscicultura.

 

Resultados do sistema

a) Arroz irrigado

Os resultados das lavouras testadas demonstram valores de produtividades similares às lavouras de arroz no sistema pré-germinado (6.500 kg/ha), dentro da mesma propriedade. Salienta-se que o uso do peixe no sistema tem reduzido para próximo de zero o aparecimento de plantas de arroz vermelho, devido à redução do banco de sementes invasoras no solo. Conseqüentemente, o arroz colhido tem sido comercializado na forma de semente com maiores ganhos financeiros.

Deste modo, existem ganhos econômicos na redução de custos operacionais da lavoura (redução do uso de máquinas, eliminação do uso de agroquímicos e eliminação do uso de adubação mineral solúvel) e ganhos nos valores de comercialização, devido à ausência de arroz vermelho, permitindo a venda como sementes. Existe ainda a possibilidade de venda como "arroz orgânico", aumentando ainda mais as vantagens econômicas.

Com o objetivo de instrumentalizar avaliações das vantagens econômicas do sistema rizipiscicultura, está disponível no anexo 1 o quadro "Análise receita/custos dos sistemas de cultivo de arroz: rizipiscicultura, convencional e pré-germinado" .

b) Peixe

O resultado médio das despescas nos quadros testados é de 1.000 quilogramas de biomassa de peixe por hectare no período de 12 meses. Salienta-se que os peixes têm peso individual de 600 a 800 gramas, não estando adequados ao atual mercado consumidor, exigindo uma fase posterior de engorda em açudes de piscicultura ou a reutilização destes mesmos animais, a partir de março, nas lavouras de arroz que não realizaram a alevinagem em outubro.

A aceitação dos peixes da rizipiscicultura no mercado consumidor de peixe cultivado é muito boa, tendo ocupado espaço relevante. Do mesmo modo que o arroz da rizipiscicultura, o peixe do sistema pode ser comercializado como "peixe ecológico", ampliando-se as vantagens econômicas.

Conclusões

  1. O sistema proposto apresenta-se potencialmente como uma forma sustentável, agroecológica e economicamente viável de produção de arroz que, entretanto, necessita de adequação e adaptação aos diversos agroecossistemas.

  2. Devido ao trabalho dos peixes, restam apenas como operações mecanizadas a semeadura e a colheita. Deste modo, no sistema há uma forte redução no uso de máquinas.

  3. Não é necessário o uso de nenhum agroquímico no decorrer do sistema.

  4. Houve vantagens econômicas na utilização do sistema devido à redução dos custos da lavoura arrozeira e incremento de venda devido à venda dos peixes.

 

Anexo 1

Análise receita/custo dos sistemas de cultivo de arroz: rizipiscicultura, convencional e pré-germinado

Sistema de produção de arroz

     Receita Total (ha) Custos totais (ha)            Custos diretos + Margem Bruta (ha)
Rizipiscicultura

Pré-germinado

Convencional

2.560,00

1.560,00

1.074,00

1.219,00

888,00

1.058,00

1.314,00

672,00

16,00

Manual Prático de Rizipiscicultura, EMATER/RS, 1999.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNARDO, S. Manual de irrigação. 3.ed.. Viçosa: UFV, 1984. 463 p.

COTRIM , Decio. Manual Prático de Piscicultura. Porto Alegre: EMATER/RS, 1998. 38p.

COTRIM, Decio et al. Manual Prático de Rizipiscicultura. Porto Alegre: EMATER/RS, 1999.

DÍAZ, A., Carboneli, J. Adecuación de tierras para la siembra de arroz. In: ARROZ: investigación y producción. Cali: CIAT, 1985. p. 159-181

BRASIL. Ministério da Agricultura. Secretaria Nacional da Produção Agropecuária. Provárzeas Nacional: 1 ha vale por 10 . Brasilía, 1982. 254 p .

CAI, Renkui, NI, Dashu, WANG, Jianguo. Rice-Fish Culture in China: the past, present and future.,1998.(http://www.idrc.ca/books/focus/776/cairenk.html)

VERONEZZI, L. Aproveitando o esterco. A Granja, Porto Alegre, v.40, n.435, p.16-18, abr.1984.

 

* (1) Eng. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Regional Metropolitano. Rua Botafogo, 1051, Bairro Menino Deus, Porto Alegre (RS), Fone 233-3144 ramal 2220, (e-mail: metropol@emater.tche.br), (2) Eng. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Divisão Técnica. Escritório Central, (3) Eng. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Municipal de Santo Antônio da Patrulha, (4) Eng. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Regional Metropolitano, (5) Med. Vet., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Regional Metropolitano, (6) Med. Vet., Extensionista Rural da EMATER/RS, Divisão Técnica. Escritório Central, (7) Tec. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Municipal de Santo Antônio da Patrulha, (8) Tec. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Municipal de São Sebastião do Caí, (9) Tec. Agr., Extensionista Rural da EMATER/RS, Escritório Municipal de Pantano Grande.


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